“Às mulheres, as vassouras. Aos homens, o mundo!”, afirmariam as bocas oitocentistas com a maior naturalidade. Não Eufrásia.
Eufrásia Teixeira Leite nasceu em — pasme, leitor — Vassouras, RJ (1850). Órfã de ambos os pais aos 22 anos, herdou com a irmã mais velha, Francisca, metade do que D. Pedro II recebia em um ano. As duas liquidaram parte dos bens e se despediram dos patrícios arcaicos do Novo Mundo. Embarcaram no navio a vapor Chimborazo rumo à Europa e apresentaram aos coetâneos modernos do Velho Mundo a coragem, a inteligência e a versatilidade brasileiras.
Eufrásia compreendia o comércio, a diversificação e as dinâmicas de mercado como poucas pessoas especializadas. Dedicou-se à matemática financeira, à gestão de riscos e à análise de fluxo de investimentos. Agia com calma, lucidez e conhecimento. Hoje, a B3 — a bolsa de valores sediada em São Paulo — a reconhece como a primeira mulher a investir na bolsa brasileira.
A financista nasceu entre barões do Vale do Paraíba — então, uma das regiões mais prósperas e o principal motor econômico do Brasil. No prestigiado colégio de meninas de madame Grivet, aprendeu francês, piano e boas maneiras. Passou quase dois anos da infância na Europa. Mulher feita, Eufrásia poderia ter vivido — e bem — na Chácara da Hera, a residência oficial da família. Herdar apólices de dívida pública, ações do Banco do Brasil, depósitos, créditos e imóveis urbanos lhe garantiria vida abastada e cômoda. Ou, ainda, casar-se, ter filhos e organizar a vida doméstica. Mas escolheu outro caminho.
Comprou ações, opções e títulos de dívida pública no Brasil e em 17 países, operando em 9 moedas. Investiu em inovações tecnológicas — como eletrificação, maquinário industrial e próteses médicas para vítimas da Primeira Guerra Mundial. Adquiriu papéis das Companhias Mogiana de Estradas de Ferro, Paulista de Estradas de Ferro e das cervejarias Antarctica Paulista e Brahma. Em outros países, adquiriu ativos de bancos, ferrovias, tecelagens, minas e petróleo. Ao morrer, era sócia de 297 empresas.
Residiu a maior parte da vida em Paris, no palacete de cinco andares, a poucos passos do Arco do Triunfo. Frequentava o círculo social da exilada princesa Isabel. Em 1887, o jornal Le Gaulois a descreveu como “bem conhecida em Paris por sua distinção e beleza”. Consta, ainda, ter sido a primeira mulher a entrar no recinto da Bolsa de Valores. Morar no centro geográfico mundial do conhecimento também permitiu proteger o patrimônio de eventuais oportunistas conhecedores de suas origens.
O cosmopolitismo europeu também ampliou a perspectiva geopolítica. Estudou causas e efeitos dos grandes conflitos. Com a eclosão da guerra mundial e da revolução russa, identificou, analisou e monitorou riscos. Alocou ativos. Acertou e errou. Investiu nas Bolsas de Paris (a capital cultural), Nova York (a metrópole emergente) e Londres (a maior cidade do mundo e o centro financeiro global).
Seguia três regras: comprar na baixa, manter os ativos por longo prazo e escolher empresas protegidas por vantagem duradoura — o fosso econômico, ideia popularizada por Warren Buffett meio século depois. A Companhia Docas de Santos é bom exemplo: explorava o porto em monopólio.
Paciente, disciplinada e inabalável, persistiu na cartilha mesmo com o nocaute global do Crash de 1929 — a maior crise econômica do século XX. Contava com 79 anos, estava doente e, provavelmente, cansada. Poderia ter apenas usufruído a riqueza. Convicta, continuou operando como o fez por décadas.
Faleceu no Rio de Janeiro (1930). Destinou praticamente toda a fortuna à cidade de Vassouras e a causas beneficentes. A filantropa sabia serem a discrição, a educação e a generosidade os principais ativos intangíveis do ser humano. Ser pioneira e diferente exigem, entre diversas características, foco, tempo, silêncio, reflexão, dedicação e altas doses de energia concentrada. Seja em velhos, seja em novos mundos.
A vassourense varreu a lógica retrógrada para longe. No lugar, consolidou valores da Belle Époque: formação intelectual, humanista e existencial com independência, protagonismo e autonomia.
Vá além
#QUEROSEREUFRASIA, de Mariana Ribeiro (edição digital, 2019). A trajetória da investidora, reconstruída a partir de documentos de época
Mundos de Eufrásia, de Claudia Lage (Record, 2009; edição revista, 2024). Romance sobre o amor entre Eufrásia e Joaquim Nabuco


