O tempo entre o disparo e o impacto no alvo guarda uma fração de segundo. O suficiente para Lara, a filha de cinco anos do chaveiro Daniel Ruiz, chegar ao colo do pai após saltar sentindo-se heroína. Acredita poder protegê-lo com a “capa da invisibilidade”. O intervalo guarda o mal-estar entre fé, esperança e dor.
Com a arma ainda quente na mão direita, o comerciante persa, Farhad, olha petrificado. Ele queria “apenas” se vingar de Daniel pelo furto sofrido na noite anterior. O rosto latino desesperado do pai agarrado à criança, os músculos contraídos e a boca escancarada pelo grito emudecido, abafado em meio aos fios de cabelo da pequena, espelham a Pietà, de Michelangelo: no lugar do filho, a filha; no lugar da mãe, o pai; no lugar do escultor, o diretor. Paul Haggis (“No Vale das Sombras”, “72 Horas” e “Terceira Pessoa”) opta por silenciar a cena — as dores suportáveis podem ser expressas; as insuportáveis calam no sepulcro absoluto.
O filme “Crash: No Limite” — thriller de 2004, vencedor de três Oscars (melhor filme, montagem e roteiro original) — aparenta ser colcha de retalhos: histórias furta-cor; tensões étnicas, sociais e culturais; e personagens como eu, você e nossos filhos.
A alternância de perspectivas compõe o mosaico da dúvida entre quem é bom, quem é mau e quem, enfim, pode e deve ser salvo. O filme vale a pena para quem vive o dia a dia entre pessoas, em meio a caldeirões de pluralidade de opiniões.
Percebe-se a intenção do autor: não é colcha de retalhos, mas patchwork — há planejamento, ordem e complexidade.
A pergunta que fica: convivemos com heróis, anjos e demônios absolutos? Há maldade ou santidade pura na Cidade dos Anjos? A redenção é possível a todos e em todos os casos?
Crash: No Limite(2004)
• Título Original: Crash
• Direção: Paul Haggis
• Roteiro: Paul Haggis e Bobby Moresco
• Gênero: Drama / Policial
• Duração: 112 minutos
• Ano de Lançamento: 2004 (EUA) / 2005 (Brasil)

