Seis (filhas) são entregues à morte, atingidas por golpes diferentes. Já só resta a última. Cobrindo-a com todo o seu corpo, com a sua veste toda, ‘Deixa-me só uma, a mesma pequena! De tantos, imploro-te a mais pequena, só uma!’, berrou ela. E, enquanto implora, por quem implora morre.
Queda-se só, entre os cadáveres dos filhos, e os das filhas, e o do marido. Pela desgraça fica hirta.
A brisa já nem um só cabelo move, o rosto empalidece, sem pinga de sangue, os olhos param, imóveis, na desolada face: nada está vivo na sua figura. Até a própria língua se congela no interior do palato endurecido, e as veias desistem de poder palpitar. E já nem o pescoço se flecte, nem os braços se movem, nem os pés logram andar: até o interior das vísceras é pedra.
Porém ela chora. E, apanhada pelo turbilhão de um vendaval, é levada para a sua terra. Ali, fixada no cimo de um monte, desfaz-se a chorar [...]
Ovídio, Metamorfoses, VI, 297-312


